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Entrevista com Eugene Puryear
Legado do caso George Floyd para política nos EUA é incerto
por Michele de Mello
22 de Abril de 2021

“Papai mudou o mundo” comentou Gianna Floyd, filha de apenas 6 anos de idade, de George Floyd. Suas palavras resumiram o sentimento de muitos ao se confirmar o veredito que considerou o policial Derek Chauvin culpado pelo assassinato do afroestadunidense, com pena de 40 anos de prisão.

O assassinato de George Floyd, no dia 25 de maio de 2020, em Minneapolis impactou de maneira permanente a história dos Estados Unidos. “Eu não consigo respirar” foi a frase que deu volta ao mundo, expressando denúncias do racismo e da brutalidade policial que são realidade para população negra em todo o planeta.

No entanto, além da justiça, ainda há um sabor agridoce sobre as mudanças reais que o caso pode gerar na realidade dos Estados Unidos.

No mesmo dia em que o movimento negro organizado celebrou o desfecho do caso, uma adolescente negra de apenas 16 anos foi morta por um agente policial em Columbus, Ohio. A polícia afirma que atuou para impedir que Ma’Khia Bryant tentasse “apunhalar” outra pessoa. No entanto, o médico que atendeu a jovem ainda com vida assegurou que há indícios de que os policiais fizeram uso da força além do que permitiria a lei.

Somente em 2020, 241 negros foram mortos pela polícia dos Estados Unidos, segundo levantamentos independentes. A polícia matou 64 pessoas negras durante a tramitação do processo do caso George Floyd

Somente em 2020, 241 negros foram mortos pela polícia dos Estados Unidos, segundo levantamentos independentes.

“É muito raro que um policial seja condenado por assassinato. Desde 2015, somente sete foram considerados culpados e milhares de afro estadunidenses foram mortos nesse período. Acho que é um exemplo que mostra como é profunda a relação de impunidade dos policiais nos Estados Unido. Foi necessário uma mobilização gigante para que um policial fosse considerado culpado numa situação como essa”, comenta o jornalista Eugene Puryear, editor do portal Breakthrought News.

Segundo ele, é muito cedo para dizer que o caso abre um precedente na justiça estadunidense. “A polícia matou 64 pessoas negras durante a tramitação do processo do caso George Floyd”, aponta.

Na noite da última terça-feira (20), tanto o presidente Joe Biden como sua vice, Kamala Harris, ofereceram um discurso logo após a sentença, destacando que “há muito mais por fazer” e este seria apenas um primeiro passo.

Harris, que desta vez discursou primeiro, assegurou que irão trabalhar para aprovar o mais rápido possível a lei George Floyd, enviada ao Congresso em junho do ano passado, que propõe uma reforma policial nos Estados Unidos.

Esse tipo de programa já foi aplicado durante anos e a polícia não mudou. Então ao invés de combater a pobreza, desemprego, déficit habitacional, que são os principais causadores de distúrbios nessas comunidades, eles tentam entregar mais dinheiro para a polícia e esperar que o problema se resolva

Puryear, no entanto, destaca que a lei prevê mais recursos para a instituição, ao invés de atender os reais motivos que geram aumento da criminalidade nas periferias do país.

“Esse tipo de programa já foi aplicado durante anos e a polícia não mudou. Então ao invés de combater a pobreza, desemprego, déficit habitacional, que são os principais causadores de distúrbios nessas comunidades, eles tentam entregar mais dinheiro para a polícia e esperar que o problema se resolva”, denuncia.

Em 2014, durante a gestão Obama - Biden, foi criada uma força tarefa que estabelecia que as investigações relacionadas à violência policial deveriam ser lideradas por procuradores e promotores independentes. O operativo foi criado como uma resposta ao assassinato de Michael Brown, no estado Missouri, nesse mesmo ano. Os dados mais recentes comprovam que a situação não mudou.

Por outro lado, para o analista, a Casa Branca tenta tirar vantagem política do caso, utilizando uma dupla narrativa. Sinalizam que atenderiam as demandas da comunidade negra, ao mesmo tempo que fortalecem a imagem do sistema judiciário como um árbitro adequado para julgar casos de violência, e da polícia como instituição chave para diminuir a criminalidade.

Kamala Harris era conhecida como funcionária “linha dura” na guerra antidrogas, no período em que foi procuradora do estado da Califórnia, contribuindo para a prisão de dezenas de jovens negros. Obama foi o primeiro presidente a visitar um presídio federal na história dos Estados Unidos, no entanto o encarceramento da população negra não diminuiu no seu governo. Durante sua administração, apenas 5% dos pedidos de indulto foram concedidos.

Além disso, apesar das promessas de diminuir a desigualdade social, a cada dólar investido em famílias brancas, apenas 0,59 centavos eram direcionados a atender famílias negras, entre 2009 e 2017. A disparidade salarial entre brancos e negros também se manteve a mesma durante todo mandato de Barack Obama e Joe Biden.

Acho que esse é um dos frutos, que Black Lives Matter, pode colher. Não quero dizer que isso irá mudar a conjuntura. Mas é um sinal poderoso de que o movimento negro pode definir como a justiça deve operar

Desde 2020, Biden e Harris utilizaram um discurso de apoio ao movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) para aumentar sua votação entre a comunidade afro estadunidense na corrida eleitoral contra Donald Trump. Agora, a dupla teria outra eleição na mira.

“Se eles conseguem posicionar a ideia de que são representantes autênticos dos trabalhadores e desse setor oprimido, certamente irá contribuir para que eles consigam consolidar sua agenda para as eleições de metade do mandato em 2022”, analisa o jornalista afro estadunidense.

Apesar das manobras, Eugene Puryear considera que o julgamento é uma vitória para o movimento negro.

“Acho que esse é um dos exemplos dos frutos, que um movimento como Black Lives Matter, pode colher. Não quero dizer que isso irá mudar a conjuntura. Mas é um sinal poderoso de que o movimento negro pode definir como a justiça deve operar e não apenas reagir às distintas situações de violência”, conclui.


Edição: Vinícius Segalla


Michele de Mello