Sri Lanka: «É um massacre económico»

18 de Abril por Stan Miller , Don Samantha


Desde 12 de abril de 2022 o Sri Lanka suspendeu o reembolso da dívida externa. O Governo tomou esta decisão num clima de grandes mobilizações sociais e depois de os governantes se terem demitido para pôr fim às manifestações. Mas isto não passa de manobra, pois o presidente e o primeiro-ministro permanecem nos seus lugares.

A suspensão do pagamento, feita com o acordo implícito do FMI e dos grandes credores privados, como a Blackrock, infelizmente não é acompanhada de medidas que permitam encontrar uma solução favorável à população. O governo pretende prosseguir o mesmo tipo de políticas que anteriormente, mas encontra-se impossibilitado de assegurar o pagamento da dívida, pois os cofres do Estado e as reservas cambiais encontram-se em níveis muito baixos.

Sobre a posição do CADTM quanto à suspensão do pagamento da dívida aplicada a partir de 12 de 12 de abril, ver: https://www.cadtm.org/O-Sri-Lanka-nao-deve-assinar-um-acordo-com-o-FMI

Desde há semanas que a crise económica no Sri Lanka vem sendo mencionada na imprensa internacional. As atenções viram-se para este país onde há vinte anos o clã mafioso dos Rajapaksa tomou conta do poder, combinando o nepotismo e a violência contra os Tâmiles [ou Tâmules, ou Tâmeis] e em geral contra a população pobre. Entrevista a Don Samantha, militante revolucionário cingalês no exílio.

Qual é a situação económica actual no Sri Lanka?

O país encontra-se numa situação económica grave. É incapaz de reembolsar a dívida externa, que ascende a 51 mil milhões de dólares. O Governo pediu empréstimos nos mercados e está a pôr a hipótese de pedir um empréstimo ao FMI e ao Banco Asiático de Desenvolvimento. Os juros da dívida são superiores ao rendimento nacional. Nos últimos dois anos a inflação subiu para 22 % ou 25 %. No corrente mês, 27 % oficialmente, mas para os bens de primeira necessidade, como os alimentos, é já de 50 %! O Banco Nacional do Sri Lanka emitiu notas de crédito para importar petróleo que foram recusadas, por causa da instabilidade. O Governo obtém empréstimos nos mercados privados internacionais para reembolsar outros empréstimos nacionais. O regime dos Rajapaksa  [1] imprime massivamente moeda, o que agrava a inflação. O custo dos bens e serviços aumenta: é um massacre económico. As pessoas vivem sem electricidade, sem gás nem gasolina… Em 24 horas passam 13 horas sem electricidade. As pessoas fazem fila dias inteiros para obterem gasolina ou gás.

Quais são as consequências políticas desta crise económica?

A 2 de abril, o Governo declarou uma situação de emergência nacional, face às manifestações massivas. Estas ultrapassam os partidos políticos. Por exemplo, uma activista e antiga partidária do UNP (partido burguês liberal), Hirunika Premachandra, mobilizou uma multidão de mulheres que cercaram o palácio presidencial. Foram atacadas por bandos de bestas ajudados pela polícia. O Governo não tem soluções. Se se voltar para o FMI, terá de vergar às suas exigências. Por isso prefere financiar-se nos mercados privados. Entretanto, a população carece de bens de primeira necessidade. Não há transportes porque não há combustíveis. O Estado está próximo da bancarrota. O Governo vendeu à China e à Índia numerosos recursos, nomeadamente os portos. Os direitaos de exploração florestal foram vendidos ao desbarato a multinacionais. No dia 11 de abril milhares de manifestantes desfilaram em todas as partes do país e diante da casa do presidente com o slogan «Go home Gotha!». No Twitter o filho do primeiro-ministro disse que seu pai iria dirigir-se à nação e falou em demissão por causa da pressão popular.

Quem organiza essas manifestações?

A direita e a esquerda organizaram manifestações nos dois últimos anos. À esquerda, o JVP (nacionalista de esquerda, estalinista, maoísta) reforçou-se durante a crise económica e organizou uma grande manifestação em Colombo, maior do que o previsto. Mas o JVP promete sobretudo resolver os problemas … se votarem nele. E propõe pedir empréstimos ao FMI! Na base, as manifestações são autoorganizadas: as pessoas bloqueiam as estradas, acampam à volta da residência presidencial, aí vivem e cozinham. Na sua maioria são hostis aos partidos políticos. Eis as suas principais reivindicações:

  • O presidente deve demitir-se;
  • O Parlamento deve ser dissolvido;
  • Rajapaksa deve devolver o dinheiro que roubou (é mencionado nos Pandora Papers);
  • A comunidade internacional deve enviar ajuda médica;
  • Os bens de consumo intermédio para os camponeses devem ser subsidiados;
  • A evasão fiscal das multinacionais deve ser reembolsada.

Entrevista recolhida por Stan Miller




Fonte: semanário L’Anticapitaliste - 611 (14/04/2022)

Tradução: Rui Viana Pereira

Notas

[1Gotabaya Rajapaksa é presidente da República desde 2019 e o seu irmão Mahinda Rajapaksa é primeiro-ministro depois de ter tido dois mandatos presidenciais.

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