Chaab yourid [o povo exige]

31 de Março de 2011 por Lucile Daumas , Souad Guennoun


Do Magrebe ao Mashrek [conhecido em português por Próximo Oriente e Levante], os povos sublevam-se e ganham destaque na cena política internacional. Esta vaga contínua de revoltas é tanto mais inesperada quanto os povos da região pareciam entorpecidos, depois de terem sofrido as guerras, a espoliação das suas terras, das suas identidades, da sua língua, dos seus recursos, da sua história, e de terem sido apontados em bloco como terroristas e forças do mal. Graças a novas formas de expressão sustentadas nas ferramentas tecnológicas mais modernas, o mundo acordou estupefacto, aturdido com isto de, depois de tanta repressão, de ditaduras do poder aliadas às do mercado (baptizadas «globalização liberal»), essa «estratégia de choque» ter provocado o despertar dos povos e não o esperado entorpecimento. Tendo visto sempre as suas lutas de resistência desviadas pelos imperialismos e seus servidores no poder local, os povos da região reencontram um rejuvenescimento, sublevam-se em nome da dignidade, à semelhança do povo palestiniano, símbolo de todas as resistências. As independências negociadas desviaram o arrebatamento das revoltas anticoloniais, dando lugar a regimes neocolonialistas. Mas hoje em dia as lutas de independência (banidas da história oficial) levadas a cabo a partir de 1911 por Omar Mokhtar [1] na Líbia, ou desde 1921 por Abdelkrim Khatabi no Rif, apelando aos povos da região para que se sublevassem contra os déspotas no poder que tinham vendido os respectivos países e se unissem para expulsar o colonialismo, renascem do esquecimento, regressam à memória das gerações mais jovens, decididas a escrever uma nova página na História. Assistimos actualmente como que ao despertar de um vulcão. Estes povos, a quem foi negada a história, roubada a independência, pilhados os recursos, mergulhados em guerras, acabaram por erguer a cabeça e revoltaram-se. É preciso sublinhar este facto: «o inimigo» indigitado após a queda do Muro de Berlim, ou seja os povos árabes e muçulmanos que tinham sido diabolizados para justificar a guerra no Iraque e no Afeganistão, varreu as ditaduras que o imperialismo ocidental manteve na região e que abriram as economias desses países às multinacionais e aos mercados financeiros, deram lugar a uma verdadeira recolonização no âmbito da mundialização, autorizaram o saque dos recursos, designadamente os petrolíferos. Os problemas sociais assim desencadeados – crescimento das desigualdades, pobreza, desemprego (com pequenas diferenças de país para país) – não apiedaram dos autoproclamados democratas ocidentais, senão na medida em que tudo isso pudesse vir a desencadear uma pressão migratória nas suas próprias fronteiras. Actualmente, sem o nomear explicitamente, antes atacando os seus lacaios, o que de facto está em causa é a desmontagem da retórica e do domínio imperialista na região. E o que é mais notável é que este movimento popular conseguiu impor a sua legitimidade rejeitando a violência, o caos, a desordem dos poderes instituídos [2]. Desta vez os arruaceiros não podem ser apontados dentro da multidão dos manifestantes, mas sim no seio da polícia; a desordem provém do poder instalado. São os ditadores, aliados de ontem, e respectivo aparelho repressivo que são apontados como forças da pilhagem e do caos. Os insurrectos líbios usufruem junto dos governos e dos meios de comunicação de uma legitimidade jamais reconhecida aos insurrectos iraquianos que lutaram contra a ocupação militar do seu país. Mas esta legitimação do movimento popular faz-se acompanhar simultaneamente do pavor dos «riscos de contágio» – prova de que a liberdade, a democracia, o poder popular lhes causam medo.

De Marrocos ao Iémen, esta vaga estende-se aos países do Golfo (apesar da maior riqueza destes), passando pelo Iraque – ainda que neste caso os acontecimentos tenham sido submediatizados, por atingirem em cheio as políticas dos países ocidentais na região desde há duas décadas. Tudo isto coloca de novo a questão da revolução no Irão. A queda do xá, pilar do imperialismo, foi como uma estalada nos Estados Unidos. Ora hoje em dia o Irão continua a ser uma das questões fundamentais. Também pouco se falou do Líbano. Na senda da revolução tunisina, seguida pela egípcia, ouviram-se vozes de jovens gritando «o povo quer o fim do regime confessional» – estas vozes fizeram-se ouvir no Líbano aquando de uma importante manifestação (importante mas pouco mediatizada, pois punha em causa o equilíbrio entre as diferentes comunidades que sustentam actualmente todo o jogo político do Líbano).

Há questões que de momento estão pouco presentes no seio dos movimentos, mas às quais as novas democracias em construção não poderão escapar: a questão da apropriação dos recursos e bens comuns (terra, água, recursos energéticos, etc.) e a questão da Palestina. Talvez seja necessário regressar à estratégia do choque, tão bem descrita por Naomi Klein. Por agora o choque mudou de campo, as ditaduras implodiram e as massas recobraram confiança em si mesmas. E o mundo inteiro encontra-se ainda sob o choque das imagens, de tal forma se afigurava impossível o desenrolar dos acontecimentos. Nada disto impede os governos europeus de prosseguirem a sua estratégia de medo, designadamente ao agitarem uma vez mais, sem qualquer sentido da decência, o fantasma da invasão migratória, venha ela da Tunísia ou da Líbia. Tampouco os impede de se agarrarem a umas quantas bóias de salvação – o apoio à monarquia marroquina continua a ser total, apesar do receio de que comece a ficar carunchosa e de se aventarem já soluções alternativas até mesmo dentro das hostes monárquicas. «O rei dos pobres» (assim baptizado pelos meios de comunicação franceses) aproveitou-se bem da era das privatizações e da globalização para acumular uma fortuna pessoal colossal.

Ditadores cleptocratas

À parte as diferenças – níveis de vida, tradições políticas, história, graus de autoritarismo – há algumas coisas comuns a todos os regimes da região, coisas essas que foram ou estão em vias de ser a espoleta dos movimentos populares: as cleptocracias de que falou Georges Corm em artigo recente [3]: quer os países sejam pobres, quer ricos, as riquezas foram açambarcadas pelos regimes no poder, mais respectivos amigos e familiares, colocados em paraísos fiscais, largamente desbaratadas em detrimento da construção das economias nacionais e, claro está, da redistribuição social – tudo isto com o aval das instituições do liberalismo mundial, que aproveitaram para continuar a submeter estas economias ao endividamento. Como já foi apontado pelos militantes tunisinos, não restam dúvidas de que a questão da dívida odiosa permanecerá na ordem do dia. Para além da reivindicação democrática, o que o movimento aponta é a questão da pobreza, do controle das riquezas e do acesso aos serviços públicos. Trata-se de repor as riquezas do país no circuito geral. Este movimento nasce da angústia da juventude relativamente ao futuro e da consciência de que nada foi feito pela população. Contrariamente ao que por toda a parte afirma a imprensa, Marrocos não constitui excepção e teme igualmente a vaga de revolta que submerge toda a região. Aí, como noutros lugares, é sobretudo a juventude quem mais se mobiliza e toma em mãos os ritmos da mobilização que alastra pelo país. O poder tenta vender a ideia da «excepção marroquina», segundo na qual a juventude de Marrocos seria livre de se exprimir sem receio das matracas. Na verdade, porém, contam-se já diversos mortos; e embora algumas manifestações tenham sido de facto toleradas, outras houve selvaticamente matraqueadas. Os manifestantes nunca sabem antecipadamente qual será a reacção da polícia. Sente-se que o próprio poder hesita quanto à táctica a seguir, oscilando entre o confronto directo e o deixa-andar, entre o «eu vos compreendo» e o «eu vos caceteio». Como crer nas promessas de abertura democrática dentro de três meses, quando no presente o debate é encarcerado e a expressão popular selvaticamente reprimida?

Em Marrocos o movimento ainda não se firmou. Embora esteja largamente presente em toda a geografia do país, das grandes cidades às pequenas vilas, ainda não conseguiu trazer à rua milhões de pessoas, nem venceu inteiramente o medo. Mas o alvo apontado é «o makhzen» e o seu sistema tentacular: o governo e o parlamento, o Majidi e El Hima, que ocupam, por conta do Palácio, respectivamente o campo económico e o campo político; é sobretudo a constituição, que atribui plenos poderes ao rei. O governo, os partidos, os sindicatos e a sociedade civil perderam toda a legitimidade; as eleições são uma verdadeira fantochada e as taxas de participação bateram no fundo. As estruturas que poderiam servir de tampão entre a monarquia e o povo foram praticamente todas desmanteladas. E foi contra o Palácio que marcharam os habitantes dos bairros de lata de Casablanca no início deste mês de Março, para declararem a sua revolta e fazerem ouvir as suas exigências. Criou-se um enorme fosso entre os intelectuais e outros patronos que se pavoneiam nos meios de comunicação social, por um lado, e por outro os jovens que lideram o movimento – e que continuam a ser ignorados pelos meios de comunicação social oficiais.

Chaab yourid

O movimento, tanto nos países do Magreb como no Levante, estruturou-se enquanto vontade popular: Chaab yourid – «o povo exige»; foi este o slogan adoptado do golfo Pérsico ao Atlântico, é este o estandarte gritado em todas as manifestações; encontramo-nos a léguas do discurso frouxo da «boa governação». Nos países em que a repressão e a cooptação das elites foram erigidas em sistema de governo, o povo impõe o debate e trá-lo para a rua. Inventa dois novos lugares de debate: o dos recursos sociais e sua horizontalidade e o da ágora, trazido para a ordem do dia na Praça Tahrir, no Cairo. Reclama o direito à informação e o direito à palavra, constitui-se em direito popular e cria formas de contra-poder. Começam a surgir cadernos reivindicativos e comités para trazerem a senda do movimento à luz do dia.
Denunciando os enganos da democracia de opereta, este Chaab yourid [o povo exige] interpela os povos do mundo inteiro que, ainda que não conheçam a ditadura brutal e selvagem de Ben Ali, de Mubarek ou de Kadhafi, para nomear apenas alguns, conhecem todos a ditadura dos mercados; esses mercados que, por meio das instituições financeiras internacionais e da OMC, por meio dos lobbies ou dos acordos de parceria económica, perverteram amplamente as instâncias e órgãos de democracia e deslocaram o lugar real do poder. Os povos grego, espanhol, irlandês sofrem-no profundamente na pele. Face ao falhanço da economia-mundo desde a crise dos subprimes, os bancos foram desencalhados e receberam benefícios fabulosos que o povo é obrigado a pagar a golpes de políticas de austeridade e de novos planos de ajuste estrutural, cujos efeitos nefastos tão bem conhecemos nos países do Sul. Hoje em dia os ditadores estão em vias de tombar e ninguém duvida que este maremoto venha a fazer-se sentir também noutras latitudes. Em contrapartida, a ditadura dos mercados permanece firme. E o movimento popular carece de programa político… É sem dúvida positivo, as respostas não são pré-fabricadas. Mas se não se conseguirem traçar perspectivas, corre-se o risco de serem as bolsas a tomar as rédeas. Não nos deixemos enganar – se os imperialismos abandonam os ditadores, é para assegurarem a perenidade dos seus interesses e o controle dos mercados. Se propõem empréstimos a Marrocos e ao Egipto, é apenas porque esses dois países são peças essenciais da sua estratégia geopolítica naquilo a que chamam o Grande Médio Oriente. Corre-se o grande risco de vermos brotar, como aconteceu nos países de Leste, revoluções laranja, de veludo, revoluções destinadas a melhor acomodar os mercados e nada mudar no fundo.

Por uma mundialização por e para os povos

O «SAI!», palavra de ordem principal de todas as manifestações da região, mostra bem que a vontade de mudança é acompanhada pela vontade de varrer todos os miasmas dos regimes vampirescos e corruptos. Do Golfo ao Atlântico, este grito dirige-se contra os poderes nacionais e respectivos esbirros. Começamos a vê-lo repetido nalguns países da África Subsariana, e quem sabe se não virá amanhã a voltar-se contra os falsos amigos da Europa ou da América do Norte, especialmente se estes tentarem uma intervenção militar directa. Ecoa neste «SAI!» o «Que se vayan todos» clamado pelo povo argentino aquando da crise financeira. E, para além das solidariedades que não deixarão de se entrelaçar neste movimento popular que flui por toda a região, quem sabe se não será na América do Sul que os povos espoliados do Magreb e do Mashrek, e talvez da África a breve trecho, encontrarão eco e fonte de inspiração para saciar a sede de soluções alternativas para construir um outro mundo – social, ecológico, solidário, complementar, inscrito em constituições realmente democráticas e populares –, para renacionalizarem os recursos e reapropriarem os bens comuns; para se tornarem por fim actores da sua própria história.




Tradução : Rui Viana Pereira

Notas

[1Omar Mokhtar (1862-1931) – depois da colonização da Líbia pela Itália, em 1912, congregou as tribos e instaurou a luta de guerrilha – nas grutas, nas florestas e nos vales de Djebal Akhdar. Por fim caiu numa emboscada e foi julgado e condenado à morte a 16 de Setembro de 1931.

[2Houve algumas excepções, nomeadamente em Marrocos, onde algumas manifestações foram seguidas de actos de pilhagem, sob a vigilância pressurosa da polícia, como demonstram algumas filmes amadores, o que não impediu a «Justiça» de decretar penas incrivelmente pesadas (até 10 anos de prisão em Tânger) contra os «arruaceiros».

[3Ver: Georges Corm, «Quand la “rue arabe” sert de modèle au Nord», in Le Monde, 12/02/2011, p. 20.

Lucile Daumas

membre d’Attac/Cadtm Maroc

Souad Guennoun

Architecte et photographe renommée, vit à Casablanca. Elle témoigne depuis plusieurs années des crises sociales du Maroc d’aujourd’hui : émigration clandestine, enfants des rues, situation des femmes, luttes ouvrières, etc.
Elle filme les luttes menées contre la concentration des richesses, les restructurations d’entreprises provoquées par le néo libéralisme, les choix du régime monarchique visant à soumettre la population aux exigences de la mondialisation financière. Elle est membre d’ATTAC-CADTM Maroc.

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