Uma carta para Marielle Franco

16 de Março por Luana Tolentino


Querida Marielle,

Há tempos desejo lhe enviar essa carta, mas somente agora consegui redigi-la. Descobri que é muito difícil escrever sobre algo que permanece confuso, desorganizado dentro de mim. Passados dois anos daquela terrível noite de 14 de março de 2018, ainda não consigo entender o que realmente ocorreu. É como se eu estivesse em meio a um pesadelo. Talvez em razão da violência, da desfaçatez, da falta de pudor com que tudo aconteceu.

Você não vai acreditar. Três dias antes do seu assassinato (não queria usar essa palavra…), enviei uma mensagem para Priscilla, uma amiga que trabalhava no seu gabinete. Perguntei como estava sendo a experiência de trabalhar com você. Demonstrei preocupação, pois naquele momento, o ódio às mulheres, aos negros e aos pobres, pilares da nossa sociedade, ganhava ares institucionais. A Pri respondeu da seguinte maneira:

– Marielle é a melhor pessoa com quem trabalhei em toda a minha vida! – Em seguida, ela enviou uma mensagem dizendo que realmente as coisas não estavam fáceis.

Jamais poderia imaginar que 72 horas após a nossa conversa, sua vida seria ceifada em uma emboscada, sem qualquer chance de defesa. Nunca havia chorado a morte de uma pessoa pública, mas com você foi diferente. Chorei ao me perguntar como puderam tirar sua vida e, consequentemente, a do Anderson também. Chorei por terem roubado de forma violenta toda esperança que depositávamos em você. Chorei pelos mais de 45 mil eleitores e eleitoras que votaram em você. Chorei pelos seus pais, pela sua filha, pela sua irmã, pela Mônica. Chorei por me dar conta dos rumos que o nosso país estava tomando. Ainda hoje, penso nos ferimentos que lhe causaram.

Temos nos esforçado para que sua luta não seja em vão. Em toda cidade que vou, encontro seu nome, seu rosto nos muros, nas escolas, nos coletivos, nos centros acadêmicos. No último 8 de março, vi você em várias faixas e cartazes. Na minha escola, homenageamos você no Dia da Consciência Negra. Preciso te contar! Quando eu disse que você seria a homenageada, um aluno questionou: “Mas, professora! Ela era sapatão!” Antes que eu interviesse, uma aluna respondeu: “Se ela era sapatão, não importa! Cada um é livre para amar quem quiser! Temos que respeitar!” Jennifer, a autora da resposta, na época, tinha apenas 11 anos. Me emociono só de lembrar.

É bem verdade que eu gostaria que essas homenagens não fossem decorrentes da brutalidade que fizeram com você, mas ainda assim, fico orgulhosa quando vejo o mundo inteiro lembrando de ti, exigindo justiça. Há quem sinta inveja. Nelson Motta estava certo ao dizer que “a inveja e o ressentimento são armas que os brasileiros manejam com excepcional destreza e virulência”.

Por outro lado, vejo pessoas que nada têm a ver com a sua história se apropriando dela. Tenho certeza que você não concordaria com o fato do José Padilha dirigir uma série a seu respeito. Para justificar a ausência de profissionais negros e negras atuando nos bastidores, Antônia Pellegrino, uma das diretoras da produção, disse que não há um Spike Lee e uma Ava DuVernay no Brasil. Como bem sabemos, o “pacto narcísico da branquitude” não tem limites. Não sei se você teve oportunidade de conhecer a pesquisadora Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, mas ela escreveu: “Somos as fontes mais genuínas de conhecimento sobre nós; exigimos que estudos que nos tomem por temática tenham como centralidade nossos pontos de vista de mulheres negras”. Obviamente, a Antônia e o Padilha em momento algum levaram isso em consideração.

Infelizmente, vejo também tentativas incessantes de assassinar sua honra, o que você representa, principalmente para cada uma de nós. Isso tem dificultado nossa luta. É muito difícil lutar contra o absurdo, contra o escárnio, contra o fascismo. Uma coisa é estabelecer diálogo com quem discorda de suas posições políticas, das ações da legenda partidária a qual você era filiada. Outra coisa é esboçar uma reação quando alguém comemora sua morte, quebra uma placa em sua homenagem, sorri diante de tamanha falta de respeito e humanidade. Quando isso acontece, é como se eu levasse um soco no estômago, que me paralisa por completo. Querida, tudo está muito pior do que quando você nos deixou…

No ano passado, estive com a Anielle, sua irmã. Foi um encontro rápido. Ela foi muito generosa comigo. Depois de um abraço apertado, disse a ela que tudo iria se resolver, o que não aconteceu até agora. Ao que tudo indica, não resolver, não dar respostas a nossas perguntas, têm sido uma escolha.

Também no ano passado, participei de uma reunião na Maré. Chegando lá, fiquei imaginando o que você, a sua voz, o seu cargo representavam para aquelas pessoas. Pude vê-la caminhando por aquelas ruas. Como sua mãe disse durante entrevista a uma amiga jornalista, que negona linda você era!

Sabemos que o racismo estrutural tem impedido o surgimento de mais Marielles nas Marés espalhadas pelo Brasil, mas prometo a você que, enquanto eu estiver nesse mundo, lutarei para que nossas meninas possam sonhar, possam ser o que bem quiserem. Apesar das dificuldades, de tantas incertezas, seguirei lutando para que nenhuma mulher seja interrompida, tal qual você exigiu em seu último discurso na Câmara de Vereadores do Rio.

Imagino que você esteja muito feliz com a gravidez da Anielle, com a abertura do instituto que leva o seu nome. Que a Eloah venha com muita saúde e traga a esperança de dias melhores. Imagino sua felicidade ao saber que a Mônica está refazendo a vida. Penso que um amor como o de vocês jamais morre, muito pelo contrário: transforma, expande, multiplica, floresce.

Em outubro teremos novas eleições. Assim como em 2018, torço para que seu exemplo, seu legado, sua força, inspire e ajude a eleger mais mulheres negras. Precisamos delas para mudar a estrutura escravocrata desse país, para fortalecer nossa democracia, tão incipiente e fragilizada.

Você é farol, é semente, e nada nem ninguém roubará isso de nós.

Obrigada, querida Marielle. Por tudo.

Deixo um abraço. Vejo o seu sorriso. Sonho com justiça.

Até um dia.

Luana Tolentino




Luana Tolentino

Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. Atualmente é professora universitária. É autora do livro Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula, lançado em 2018 pela Mazza Edições.

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