Qual deve ser a do FSM na(s) crise(s)?

18 de Fevereiro de 2009


Qual é o outro mundo possível?
Diversidade de propostas marca o FSM da Amazônia. Confira em 18 páginas
Frei Betto e os 100 anos de Dom Helder Câmara.

Por Anselmo Massad, Brunna Rosa e Glauco Faria [Quarta-Feira]

Após a realização da primeira edição do Fórum Social Mundial (FSM) em Porto Alegre, em 2001, as avaliações eram bastante positivas. A maior parte achava que tinha vivido dias históricos. Eram 20 mil participantes e 4.700 delegados de 117 países. Sendo que o evento praticamente só havia sido divulgado pela internet. Tinha-se a sensação de que se começava um ciclo de lutas onde outro mundo seria possível.

O Fórum tinha nascido para se contrapor ao Fórum Econômico Mundial (FEM), que desde 1971 acontecia na cidade de Davos, nos Alpes suíços. Entre os seus propósitos também estava o de ser um “outro lado” de projetos e formulações para a transformação do planeta. E se àquela altura se contrapor ao FEM era um duro embate, hoje até mesmo a pátria-mãe do neoliberalismo, os EUA, mandam um representante secundário – ou um “sub do sub”, como diria Lula –, às montanhas gélidas. É quase um consenso entre os participantes do FSM que o FEM tem uma representatividade menor. “Executivos que estiveram em Davos há um ano hoje estão quebrados. É uma demonstração clara de que tudo o que discutiram há anos virou pó”, sentencia João Felício, representante da Central Única dos Trabalhadores (CUT) no Conselho Internacional (CI) do Fórum Social Mundial.

Enquanto isso, o Fórum Social Mundial já pode apresentar conquistas. Muitos movimentos se fortaleceram, se internacionalizaram ou mesmo passaram a ser reivindicados por milhares de altermundistas (aliás, termo que se criou neste processo) como fundamentais para construção de um outro mundo possível. Como exemplo: os movimentos de economia solidária e de software livre, o uso das tecnologias sociais, a denúncia do aquecimento global, a luta contra a Alca, a solidariedade às lutas internacionais como a da Palestina, a construção da comunicação compartilhada e do copyleft, a resistência à globalização neoliberal etc.

E até por tudo isso, Sérgio Had­dad, coordenador-geral da Ação Educativa, acredita que o Fórum adquiriu um significado maior após o advento da crise, já que ela teria sido antecipada durante os debates das edições passadas. “A importância do FSM é tanta que até os meios de comunicação corporativos estão mais sensíveis a ele, estão levando a sério o Fórum”, pondera. “Também, pudera, provamos que estávamos certos, provamos que o que diziam desde o primeiro Fórum, em 2001, que éramos atrasados, é uma grande bobagem. Enquanto eles estavam deslumbrados com o neoliberalismo, nós sabíamos que este sistema é inviável”, argumenta.

Agora, o desafio que se impõe é outro: diante da crise econômica, como consolidar e aprofundar o potencial do FSM em ser protagonista real na construção de alternativas para o “outro mundo possível”? Para muitos, essa é uma oportunidade histórica para se discutir e elaborar uma saída que represente no futuro o enterro do capitalismo enquanto sistema econômico. Para outros, a crise não é sistêmica, mas representa na prática a ruína do modelo neoliberal e sua superação dar-se-á com mais regulação do Estado e outras vitórias nas áreas social, ambiental, trabalhista e econômica. Mas, para estes, hoje ainda não haveria condições práticas para a superação do sistema capitalista.

Presente na mesa “A convergência das crises e a crise de civilização”, o sociólogo belga Eric Toussaint não tem dúvidas. “É uma crise do sistema capitalista, não do modo neoliberal capitalista. E identificar isso é um ponto fundamental para definir uma estratégia de ação”, argumentou. Por conta disso, ele discordou de Oded Grajew, que declarou a um jornal do Pará que o presidente recém-empossado dos EUA poderia participar do Fórum Social Mundial e seria bem vindo. “Parece que existe uma confusão total sobre a caracterização do governo Obama, do tipo de crise que enfrentamos e da solução que a humanidade precisa”, pondera. “Se um outro mundo possível é com Barack Obama, então não há outro mundo. É necessária uma ruptura com o sistema capitalista, um retorno a mais regulação do Estado na economia é o que pretende quem quer salvar o capitalismo.”

O sociólogo também criticou o fato de a crise alimentar iniciada em 2007 ter tido tão pouco destaque de parte da mídia se comparada à crise financeira. “Nos meios de comunicação do Norte é a crise financeira que tem prioridade, mas para a maioria dos povos do Sul é a alimentar, já que a maior parte da população mundial gasta 70% de seu salário para se alimentar. Passaram de 800 milhões pra mais de 960 milhões sofrendo fome no mundo e essa crise é ligada ao sistema capitalista”, esclarece.
O belga François Houtart, do Fórum de Alternativas e membro do Conselho Internacional do FSM, também acredita na abrangência da crise econômica, que seria também social, alimentar, climática e energética. Com isso em vista, o Fórum Social Mundial não pode defender apenas a regulamentação do mercado, mas deve ir além. “Precisamos de propostas alternativas à lógica do capitalismo, que é a causa das crises, e o FSM é o local onde podemos chegar a elas”, sustenta.

A crítica de Houtart deriva das conversas que ele trava com integrantes da Alta Comissão da ONU que tem como objetivo rever os mecanismos do sistema financeiro global, da qual também faz parte. Em geral, nas discussões do órgão só se trabalha com a possibilidade de regular o mercado. “Eu pergunto: reformar para quê? Para que as empresas automobilísticas voltem a produzir carros poluentes e a dominar a vida de cidades inteiras?”

Para Sérgio Haddad, as pessoas ainda não têm uma dimensão certa do tamanho dos problemas ocasionados pelo atual cenário. “Conseguimos o reconhecimento de que este sistema não funciona, que só provoca o desastre ambiental, o consumo pelo consumo, tendo como centro o mercado financeiro Mercado financeiro Mercado de capitais a longo prazo. Inclui um mercado primário (o das emissões) e um mercado secundário (o da revenda). A par dos mercados regulamentados encontramos mercados fora da bolsa, onde não existe a obrigação de satisfazer regras e condições mínimas. . Porém, acredito que não tenha caído a ficha da população mundial, ainda se fala que esta crise vai passar”, explica. “Mais do que nunca o FSM retoma sua natureza de contraponto a Davos. Afinal, foi para isto que ele nasceu e hoje, frente à crise, que é muito mais ampla do que a questão financeira, a história demonstra o quanto esta estratégia estava correta. O que terão a dizer aqueles que se sentam no Fórum de Davos? Como explicar o fracasso de suas recomendações frente às profundas consequências para a humanidade e o meio ambiente?”, questiona.

A questão ambiental e sua relação com o sistema econômico também foi o foco da exposição do sociólogo Michael Löwy, que defendeu durante o FSM a adoção do ecossocialismo para evitar o que ele denomina de “crise da civilização”. “Precisamos de um sistema que alie as causas sociais com ecologia e esteja à altura dos desafios do século XXI. Lutar por um sistema eficiente de transporte público é um exemplo disso. Fazendo um balanço crítico das experiências socialistas do século passado e dos movimentos ecológicos atuais, poderemos propor esse outro modelo de civilização, que é o ecossocialismo”, resumiu, de acordo com a Agência Brasil.

Quem também destaca a urgência dos movimentos de esquerda e do FSM em propor alternativas para a crise é o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos. “Se não dermos a solução, ela virá de Davos, com mais capitalismo e menos direitos. São eles que estão a pensar uma solução”, aponta. Dentre as propostas, ele defendeu que o FSM proponha a extinção do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI), instituições que perderam o pouco de credibilidade que tinham depois da eclosão da crise.

Para o colunista da Fórum e presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Marcio Pochmann, o FSM conseguiu pautar a discussão que hoje acontece em Davos. “A avaliação crítica do Fórum Social Mundial já foi introjetada pelo próprio Fórum Econômico. Aquela crítica apresentada em 2001 hoje também está em debate na Suíça”, sustenta. Para ele, o momento é extremamente apropriado para mudanças. “Do ponto de vista histórico, o que está acontecendo hoje é uma vitória para os movimentos, mas a crise não necessariamente significa mudanças. Ela também é destruição e justamente por isso a definição de alternativas e ações dos movimentos sindicais e sociais tornam-se mais complexas”, pondera. F
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