Descolonização e neocolonialismo

Era uma vez no Quênia

7 de Setembro por Bruno Ribeiro Oliveira


O autor queniano Ngũgĩ wa Thiong’o

Os campos de concentração ingleses conseguiram impor oito anos de terror, mas não impediram que a colônia, outrora chamada de um país de homens brancos, erguesse suas próprias cores na bandeira queniana.

Jomo Kenyatta é considerado o pai da Uhuru, ou independência do Quênia, que ocorreu em 12 de dezembro de 1963. Antes disso, o Quênia era uma colônia do Império Britânico. Em 1952, quando o colonialismo começava a ruir, Kenyatta foi acusado e sentenciado em um julgamento de fachada que o enviou ao cárcere. Acusação? Era considerado o líder dos guerrilheiros Mau Mau, ainda que não houvesse provas.

Os Mau Mau foram um movimento formado por diversos grupos guerrilheiros que lutaram entre 1952 e 1960 contra os britânicos e quenianos leais ao governo colonial. O objetivo dos Mau Mau era conquistar terra, liberdade e expulsar os colonizadores. Apesar de derrotados militarmente, os Mau Mau foram responsáveis pela ruína moral do projeto colonial no Quênia. Nenhum império europeu conseguiria barrar o sol da independência para os quenianos.

Os campos de concentração ingleses conseguiram impor oito anos de terror, mas não impediram que a colônia, outrora chamada de um país de homens brancos, erguesse suas próprias cores na bandeira queniana. Vítimas de um sistema colonial, racista, autocrático e exploratório, Kenyatta e seus aliados conseguiram organizar os maiores movimentos quenianos pela independência da nação e, após décadas, conquistaram a libertação.

Frantz Fanon, influente intelectual afro-caribenho, partidário da descolonização por via das armas, não aprovaria o método de Kenyatta. O pai da Uhuru tratou de negociar com o antigo colonizador. Kenyatta nunca reconheceu o valor dos que lutaram e morreram no movimento Mau Mau. O pai da independência não distribuiu a terra tão esperada pelos Mau Mau, mas dividiu entre seus aliados. A independência também proibiu o assunto. Falar e lembrar a luta Mau Mau podia render problemas com um governo que queria abafar o passado.

Cerca de 10 mil Mau Mau morreram por terra e liberdade. Milhares de apoiadores e suspeitos sofreram em campos de concentração ingleses. Nem uma década havia passado desde os campos de concentrações nazistas da Segunda Guerra Mundial serem desativados e, na década de 1950, os britânicos, com a justificativa da missão civilizadora, ergueram campos de morte e tortura por toda a colônia do Quênia.

Ao fim, com lágrimas e sofrimento, mas com esperança e resistência, o colonialismo caiu. Porém, sua obra persistiu (e persiste). A liberdade na África raiou com celebração e acabou em sistemas de partidos únicos que proibiam oposições e barravam processos democráticos. O pai da independência, Jomo Kenyatta, tornou-se o líder incontestável da República do Quênia. Mas o patriarca do Quênia havia aprendido o método colonial.

Em 1977, um premiado autor queniano chamado Ngũgĩ wa Thiong’o e um autor com nacionalidade queniana e zimbabuana Ngugi wa Mirii, produziram uma peça de teatro com a participação da população da pequena cidade de Kamiriithu, localizada nos arredores da capital Nairóbi. Após um grande sucesso a peça foi proibida pelo governo queniano. Motivo? Ela criticava o governo, denunciava-o como uma continuação do governo colonial, clamava por terra, liberdade e buscava resgatar e inspirar o público através do exemplo da luta Mau Mau.

A peça se chamava I Will Marry When I Want (Eu vou me casar quando eu quiser). Os autores afirmavam que o governo não cumpria seus deveres com o povo. Nada de democracia, nada de terras e nada de dividir a riqueza. Ngũgĩ wa Thiong’o foi preso em sua casa. Não houve acusação nem julgamento. O acesso à terra e a liberdade que não existiam nos tempos de colônia também não floresceram no pós-colônia. Mas isso não podia ser dito.

Aprisionado com outros presos políticos do Quênia independente, Thiong’o teve que tirar suas próprias conclusões sobre a prisão. Seus algozes não emitiam nenhuma declaração sobre o motivo de seu encarceramento. Kenyatta desafiara um poder autocrático e fora aprisionado. Thiong’o desafiara um poder autocrático e fora aprisionado. Um caso de colonialismo e um caso de neocolonialismo, respectivamente. [1]

Kenyatta não ousou acabar com a obra do colonialismo, mas decidiu exercê-la. Os brancos que foram embora deixaram suas formas de governança e os que assumiram decidiram mantê-las. Na prisão, Thiong’o escreveu um livro chamado Devil on the Cross (Diabo na Cruz) em rolos de papel higiênico. Em uma cena da obra, o autor narra como homens negros do Quênia aprenderam os truques dos antigos mestres brancos. Estes ensinavam como praticar a dominação autocrática sobre seus países, não apenas para seu benefício, mas também para benefício da antiga metrópole. [2]

Mas, se a autocrática elite queniana (e africana) trabalha para si e para os antigos mestres colonialistas, para quem trabalham os mestres brancos? O autor nos informa que todos servem ao maior dominador de todos, o sistema capitalista imposto pela Europa ao redor do mundo. E, com o apoio de grupos nativos que desejavam emular o antigo colonizador, ele se mantém em terras além da Europa.

Agora, imagine, isso ocorreu na África, Ásia, Oceania e América. Formas de organizar a sociedade e suas instituições de controle foram desenvolvidas na Europa e impostas sobre outros continentes para benefício do pequeno continente. Desse modo, a Europa deu a si mesma o lugar de centro do mundo através de séculos de escravidão, colonialismo, imperialismo e racismo.

Desafiar o dinheiro e seus lacaios rende prisão, censura, exílio e, nos casos mais extremos, assassinatos. O caso de Jomo Kenyatta, um aspirante da libertação do Quênia, não significou a libertação dos trabalhadores e aldeões do país. Como um clássico exemplo de capitalismo de terceiro mundo, apenas uma pequena fração da sociedade ganhou enquanto a maioria existe com o que sobra. Romper com a obra do colonialismo não foi o caminho escolhido pelos que tomaram o poder na República do Quênia.

Uma população maltrada num país desigual acabou por ser o foco de muitas das obras de Ngũgĩ wa Thiong’o. O autor não fora preso apenas por Jomo Kenyatta e seu sucessor Daniel arap Moi, mas pelo sistema neocolonial que domina a cultura, a economia e a política queniana pós-independência. Kenyatta e Thiong’o são dois exemplos de uma longa conjuntura histórica. Não se trata de repetição, existem particularidades nos dois diferentes momentos históricos de cada um dos personagens.

Kenyatta buscou descolonizar o Quênia, mas sua descolonização era limitada. Não previa descolonizar-se das formas econômicas, culturais e políticas impostas pelo Ocidente. Thiong’o buscou ir além. O autor queria descolonizar corações, mentes e desfazer os nós que prendem o “independente” Quênia ao antigo colonizador. O neocolonialismo, como termo, saiu de moda, mas como sistema de dominação do centro sobre a periferia, ele está a pleno vapor moldando as relações internacionais e dando forma a globalização.

O caso da guerrilha Mau Mau e de Ngũgĩ wa Thiong’o servem para exemplificar uma luta de longa data entre forças progressistas que, por um lado, resistem aos ímpetos colonizadores que gestam desigualdade e, de outro, forças que até hoje elevam o passado colonial e sua obra para legitimar o domínio do poder ocidental responsável por um sistema que deixa o planeta à beira da destruição. Apesar de pouco conhecida nos trópicos latinos, a história queniana é um espelho para os colonizados do globo que ainda esperam por sair da noite.




Notas

[1THIONG’O, Ngũgĩ wa. Wrestling with the Devil, a prison memoir. Vintage, 2018, p.5.

[2THIONG’O, Ngũgĩ wa. Devil on the Cross. Pearson, 1987, p.82.

Bruno Ribeiro Oliveira

é mestre em História de África pela Universidade de Lisboa e doutorando do Programa de História e Artes da Universidade de Granada.

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