Apoio aos prisioneiros políticos marroquinos Omar Radi e Soulaiman Raissouni, às suas famílias e amigos.as – CADTM

24 de Agosto por Myriam Bourgy , Pauline Imbach


O mundo descobriu finalmente, através da divulgação do dossier «Pegasus» – a aplicação informática israelita que está no centro de um dos mais graves escândalos de espionagem do século –, que os poderes públicos marroquinos espezinham alegremente os direitos humanos, a liberdade de expressão e a imprensa. [1]

Actualmente esses direitos não existem em Marrocos. Se os jornalistas Omar Radi e Sulaiman Raissouni, vigiados pelo Pegasus, estão na prisão, é justamente porque viram e denunciaram o endurecimento autoritário do seu país. Recusaram, como muitos outros jornalistas marroquinos, submeter-se e calar-se. O dossier Pegasus prova que Omar e Sulaiman são lançadores de alerta e que o seu combate ultrapassa largamente as fronteiras de Marrocos.

Omar Radi é nosso amigo. Encontrámo-nos em 2007 e trabalhámos juntos na rede internacional CADTM (Comité para a Abolição das Dívidas Ilegítimas). Jornalista de investigação, voz crítica que o poder marroquino pretende silenciar a qualquer custo, foi condenado em 19 de julho de 2021 a 6 anos de prisão; o seu julgamento foi uma farsa. Não conhecemos pessoalmente Soulaiman Raissouni, editor no diário Akhbar Al Yaoum. Encarcerado desde maio de 2020, juntamente com Omar Radi, após um julgamento iníquo Soulaiman foi condenado a 5 anos de prisão. Foi na sequência da sua detenção que ele se tornou de alguma forma nosso amigo. Tal como em relação a Omar, nós pensamos nele diariamente, preocupamo-nos com o seu estado de saúde e tememos pela sua vida. Após 11 meses de prisão preventiva, Soulaiman deu início no passado dia 8 de abril a uma greve da fome ilimitada.

Não nos encontramos em Marrocos, estamos longe, mas há mais de um ano que partilhamos diariamente com a família e os/as amigos dos prisioneiros políticos uma imensa cólera, uma pena profunda e a esperança. É difícil encontrar palavras para exprimir o nosso apoio e a nossa admiração tanto por Omar e Soulaiman como pelos seus familiares e amigos/as que se batem sem tréguas pela sua libertação. Desde a prisão arbitrária de Omar, há cerca de um ano, Driss Radi, seu pai, escreve-lhe todos os dias uma carta que publica nas redes sociais digitais. Essas cartas são ao mesmo tempo ternas e lancinantes, mas são também um autêntico livro de denúncias sobre a situação política em Marrocos. A mãe de Omar e a mulher de Soulaiman, com a sua coragem, tornaram-se figuras de destaque na luta pela libertação dos prisioneiros políticos. Acompanhadas pelos/as amigos/as, mantêm um combate diário exemplar que não está isento de perigos. Em Marrocos a repressão encontra-se no seu apogeu!

Seguimo-las nas redes sociais e vemo-las nos nossos ecrãs, impotentes, a serem agredidas por polícias que, sempre em maior número, impedem as suas reuniões, violentam-nas, arrancam-lhes os cartazes e, cúmulo da bestialidade, cortam as árvores que lhes dão sombra nos sit-in de solidariedade. Sabemos que esta é apenas a face visível. Adivinhamos que estejam sob escuta. Imaginamo-las a serem seguidas, importunadas, humilhadas, vigiadas … As famílias são deixadas sem novas dos seus entes queridos, sem saberem sequer, no caso de Soulaiman Raissouni, se ele permanece vivo. Nos últimos dias a administração prisional recusou sempre a sua transferência para um hospital e colocou perto dele outros detidos encarregados de o espiarem e de comerem diante dele, uma verdadeira tortura após tantos dias de greve de fome … Recusou-lhe também o acesso a uma cadeira de rodas, embora Soulaiman já não possa caminhar, obrigando-o a rastejar para se encontrar com os advogados! [2]

O poder marroquino serve-se de todos os meios para quebrar os prisioneiros políticos, as suas famílias e os seus apoiantes. Mas, dia após dia, as famílias e os/as amigos marroquinos permanecem de pé, cheios de determinação e ânimo. Dia após dia fazem ouvir as suas vozes clamando por justiça e liberdade. Dia após dia, enfrentam corajosamente o poder. Dia após dia, tememos por eles, nós que não temos a sua coragem. Eles/as são as vozes livres de Marrocos, insubmissas, e o seu combate não podia ser mais justo!

Estamos com eles. Sejamos muitos/as a exigir a liberdade de Oman e Soulaiman e de todos/as os prisioneiros políticos de Marrocos!




Notas

[1Nota do tradutor: Pegasus é o nome de uma aplicação de espionagem electrónica (pouco noticiada em Portugal) que pode ser instalada por controle remoto em qualquer smartphone, sem o conhecimento do seu proprietário. A aplicação é vendida a qualquer governo do mundo pela NSO Group, com sede em Israel. A Amnistia Internacional tem conhecimento de uma lista de mais de 50.000 jornalistas, em todo o mundo, que são vítimas desta forma de espionagem. Ver, entre outros: «Journalists under surveillance.

[2Testemunho de Kholoud Mokhtari, a mulher de Soulaiman Raissouni, publicado na sua página de Facebook após conversa telefónica com o marido a 28 de julho de 2021.

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